Li recentemente um livro chamado Arquipélago Gulag. O livro foi escrito por Alexander Soljenítsin, que recebeu o prêmio Nobel de literatura de 1970. O autor foi capitão do exército russo na segunda guerra mundial. Condecorado por bravura, acabou preso devido a chamar Stalin de “chefão” em suas correspondências. Foram oito anos de trabalhos forçados pela “traição” praticada. A pena foi cumprida em prisões chamadas de Gulags, que eram situadas no meio da neve.
Já havia ouvido sobre os Gulags, mas nunca tinha lido nada a respeito. Sabia que eram prisões horríveis, mas não imaginava que funcionassem como verdadeiros campos de extermínio, mesmo após os horrores dos campos de concentração nazistas terem sido revelados ao mundo.
As pessoas que seriam fuziladas, por exemplo, eram levadas nuas pela neve. Não se tratava de uma questão de tortura, mas sim de economia. Já que seriam mortas mesmo não precisariam sujar aquelas roupas que poderiam ser utilizadas por outros presos. Havia casos de pessoas que morriam nas celas e os demais prisioneiros escondiam a morte por diversos dias. A razão era que desse modo poderiam dividir a ração do morto entre os demais companheiros de cela.
Alguns presos, acreditavam na revolução comunista e para mostrar que eram fiéis ao regime resolviam trabalhar bastante, o que também renderia uma porção extra de comida. O problema é que a porção extra não era suficiente para repor as calorias perdidas e isso fazia com que eles fossem os primeiros a morrer. Sobreviver dependia de trabalhar a justa medida. Quando o preso trabalhava pouco apanhava, e também podia ser fuzilado. Era necessário trabalhar o suficiente para não ser assassinado por “preguiça” e não trabalhar demais, a ponto de morrer extenuado.
Asseguro que foi um dos livros mais pesados que já li. Não me entendam mal. O livro é bem escrito, mas a maldade nele relatada é extrema, embora seja relativamente pouco divulgada.
Minha filha, de nove anos, já leu o diário de Anne Frank, em versão para crianças, mas meu filho de quinze nunca havia ouvido falar dos Gulags. Milhões foram mortos e outros milhões sofreram nos campos de trabalho.
Eu mesmo, já cinquentão, fiquei preocupado por nunca ter sabido o tamanho da tragédia sofrida pelo povo russo. A tristeza por saber o que ocorreu foi profunda. Ler o livro causou-me asco e admiração. Asco pela tragédia que um governo totalitário causou. Admiração por ver que um homem foi corajoso o suficiente para colocar o dedo na ferida e mostrar ao mundo o que ocorreu.
É preciso que o ensino escolar continue a ensinar sobre os horrores do nazismo, mas é necessário também mostrar o que ocorreu nos Gulags. O horror não aconteceu apenas uma vez, foi repetido, mesmo após ser denunciado e punido em Nuremberg. A humanidade precisa ter memória. O mal nunca surge de uma vez só. Ele vem devagarinho até se tornar um monstro. Apenas a lembrança pode combatê-lo.
Autor: Marcelo Harger

